Belo Horizonte ganhará casarão para preservar memória dos construtores

Imóvel erguido em 1929 na Rua da Bahia começou a ser restaurado para abrigar o acervo da comissão construtora da capital.

PAULO HENRIQUE LOBATO - Jornal Estado de Minas

Belo Horizonte ganhará mais um ponto turístico para ajudar a contar a história da capital que completa hoje 119 anos. O casarão de número 2.425 da Rua da Bahia, erguido em 1929, em frente ao local onde hoje funciona a Arena Minas Tênis Clube, no Bairro de Lourdes, começou a ser restaurado para sediar um endereço cultural. Aprefeitura informa que ainda não definiu qual será o uso do imóvel, mas o Estado de Minas apurou que o bem, tombado em 2002, vai abrigar o acervo da comissão de profissionais que construíram a cidade inaugurada em 12 de dezembro de 1897.

Hoje, em comemoração à data, a cidade recebe outros presentes. Às 19h30, a Cemig inaugura a tradicional decoração natalina da Praça da Liberdade. Já amanhã, será a vez de milhares de luzes se acenderem no prédio da empresa e da Avenida Barbacena, no Bairro Santo Agostinho, também na Centro-Sul. Devido à previsão de chuva forte para hoje, a Prefeitura de BH decidiu não fazer a festa com o tradicional bolo de aniversário, mas há atrações na área cultural, como exposições (veja programação) preparadas pela Fundação Municipal de Cultura e Belotur dentro do projeto Viva BH! 119.

No caso do casarão da Rua da Bahia, documentos da equipe comandada pelo engenheiro Aarão Reis (1853-1936), como fotos e papéis das áreas administrativa, contábil e técnica, assim como outros itens que compõem a história do planejamento da capital, devem compor o acervo. Acomissão construtora trabalhou de 1894 a 1897 e era composta por outros engenheiros, além de arquitetos e urbanistas.

A casa, em estilo arquitetônico eclético com influência neoclássica, tem dois pavimentos e edícula ao fundo. O piso é em tacaria, com diferentes padronagens para cada cômodo. Há banheiros com louças inglesas e a área social apresenta paredes revestidas em painéis de madeira. Uma das características da escadaria principal, feita com jacarandá, é um vitral da Casa Conrado, de São Paulo.

O imóvel leva assinatura do arquiteto Luiz Signorelli (1896-1964), um dos fundadores da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), implantada em agosto de 1930. Um importante imóvel que também leva o traço dele é o atual Centro Cultural do Banco do Brasil, ex-Secretaria de Estado de Defesa Social, na Praça da Liberdade. Também são trabalhos dele o imóvel da ex-Secretaria de Estado do Turismo, na Praça Rio Branco, e o da Academia Mineira de Letras, na mesma Rua da Bahia.

O casarão foi adquirido pela Construtora Caparaó, que usará a maior parte do terreno para erguer um prédio residencial de alto luxo, com 18 andares e um apartamento por pavimento. Já o casarão será restaurado e doado à prefeitura. Aprevisão é de que a reforma seja concluída no ano que vem, quando Belo Horizonte completará 120 anos.

Embora a administração municipal não confirme o futuro do endereço, a própria prefeitura deixou pistas a respeito. É o caso da ata da reunião de outubro do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM-BH), à qual o EM teve acesso. No documento, a conselheira Sandra Lemos Coelho Bontempo observa que o local pode ser uma extensão do complexo da Praça da Liberdade. Segundo ata de reunião ordinária do conselho, ela “ponderou que a proximidade da casa com a Praça da Liberdade promoveria um prolongamento da proposta do Circuito Cultural e considerou que o acervo da Comissão Construtora seria muito mais adequado à edificação”.

CURIOSIDADE Um dos documentos elaborados pela comissão construtora que mais chamam a atenção dos atuais moradores é o mapa, datado de 1895, que definiu onde seriam construídas as principais praças e prédios da nova capital. Muitos espaços e obras pensados por Aarão Reis, contudo, não saíram do papel por falta, sobretudo, de dinheiro.

É o caso, por exemplo, da catedral, prevista para ocupar um dos quarteirões no encontro das avenidas Afonso Pena e Contorno, onde é hoje a Praça Milton Campos. Naquela época, o local era o endereço mais alto da nova cidade. As bases do templo foram feitas, mas as paredes da catedral não foram erguidas por falta de recurso.

O local reservado ao templo ganhou, ainda naquela época, um cruzeiro de madeira. Daí o nome do bairro na Região Centro-Sul. Até hoje a capital não conta com uma catedral definitiva. A construção começou a ser erguida em uma das margens da Avenida Cristiano Machado, no Bairro Juliana, na Região Norte, devendo ser inaugurada em 2021.
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